Os heterónimos pessoanos, Ontem e Hoje
ONTEM
As lembranças de um passado ditoso afluem constantemente à memória deste heterónimo pessoano, Álvaro de Campos:
«O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(…)
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…»
HOJE
Os alunos refletem sobre o importante papel que a memória desempenha na construção da identidade do ser humano.
Mariana Dias | 12 C
A afirmação «A memória desempenha um papel importante na construção da identidade do ser humano» é verídica e apoiada por várias áreas do saber, da ciência à poesia.
Na Psicologia, por exemplo, aprendemos que a neotenia protege as memórias durante um longo período, portanto defendo que a memória é o fio condutor para a construção da nossa personalidade e do nosso carácter.
Dos exemplos mais concretos sobre a importância da memória são os poemas de variadíssimos poetas. De alguma forma, todos os poetas recorrem ao seu tempo de infância por ser uma época de memórias felizes. Naquela época, viviam a inocência e a candura. Quando somos crianças, somos puros, ingénuos e especialmente amados. É o que recorda Álvaro de Campos num dos seus poemas: “O que fui de amarem-me e eu ser menino”. De facto, muitas das nossas memórias confrontam-nos com a saudade de ser criança e com o desejo de querer voltar atrás no tempo.
Outro exemplo da importância da memória é relembrar a História: os nossos antepassados, as conquistas e derrotas que aconteceram na nossa ausência, aqueles que por cá passaram, os heróis e os “vilões”. Estes momentos fazem parte de cada um nós e é por isso que devem ser guardados na memória.
Infelizmente, há pessoas que perdem a memória e sentem-se perdidas. Se pensarmos bem em quem nós somos sem a nossa memória… não somos ninguém! A memória faz parte do ser humano e o ser humano faz parte da memória. É uma ligação que deve ser inalienável.
Para finalizar, faço referência à personagem Dory, do filme da Disney, «À Procura de Nemo». A «peixinha» simpática sofre de amnésia, ou seja, não tem memória, transmitindo, assim, às crianças a importância da nossa memória. Sem ela a vida pode ser muito difícil, por isso, devemos preservá-la ao máximo.
Beatriz Duro | 12C
A memória desempenha, de facto, um papel importante na construção da nossa identidade. É através dela que nós nos vamos desenvolvendo. Somos feitos das memórias boas e das memórias más e moldamos a vida segundo elas.
Uma mente sem memória é uma casa vazia que pode pertencer a qualquer um, que qualquer um pode habitar. Uma mente sem memória é um país sem história, sem identidade, um país pelo qual ninguém teve de lutar para conquistar. Perder a memória é perder parte de nós, é perder risos, cheiros, choros, brincadeiras, lições, desgostos e vitórias. Mas e quem a perde? Doenças como o alzheimer afetam pessoas diariamente: quem sofre delas e os seus familiares. É uma luta constante para resgatar parte do que já foi deles…
Contudo, ter memória também tem o seu lado negativo, e assim como ajuda a construir identidades, também pode causar a crise de muitas. A dualidade entre o que fomos e o que somos pode levar-nos a questionar a nossa identidade. E se a estes fatores ainda acrescentarmos o que queremos ser, a confusão aumenta. É difícil quando nos apercebemos de que deixamos de gostar das mesmas coisas, de nos sentir bem com as pessoas com que sempre nos sentimos, de ser bons naquilo que sempre fomos. A memória diz-nos quem fomos, mas o que é que fazemos quando a realidade presente difere de tudo o que nos lembramos?
Para concluir, confesso que ainda não encontro resposta para esta questão, no entanto sei que, apesar de tudo, a memória é, sim, importante e tem um papel fundamental nas nossas vidas. Porque podemos não saber onde estamos ou para onde vamos, mas sabemos de onde viemos.
Mariana Oliveira | 12 C
A memória desempenha, com certeza, um papel importante na construção da identidade do ser humano.
Todos nós nos lembramos de determinados momentos da nossa infância e adolescência que contribuíram para a formação e desenvolvimento do nosso “eu” enquanto adultos, e essas lembranças são essenciais. Caso não nos vejamos como uma espécie de semideuses, garanto-vos que todos nós cometemos erros ao longo da nossa vida. Seja o de quebrar a confiança de um amigo, responder «torto» a alguém, não ouvir o que os nossos pais têm a dizer. Mesmo que sem querer, todos nós cometemos erros. É aqui que entra a memória. Quando saímos da linha e nos apercebemos disso, fica automaticamente registado na nossa cabeça que não devemos voltar a ter aquela atitude. Assim, quando nos depararmos com uma situação parecida, a nossa postura será (ou deverá ser) totalmente diferente.
De um ponto de vista sentimental, a memória tem também um impacto enorme. É incrível como somos capazes de nos lembrar de pequenos gestos que fizeram por nós, como abrir a porta para passarmos ou elogiar aquela camisola de que não gostávamos tanto – e nem estou a falar de coisas elaboradas!
Ouço constantemente as histórias de vida que os meus avós têm para contar, e, sinceramente, espero um dia também poder partilhar as minhas histórias com alguém, porque tenho a certeza de que me vou lembrar de todas elas! Acredito que seja por esse motivo que as pessoas tiram tantas fotos e as colocam em álbuns – para mais tarde olharem para elas e sorrirem por terem tido a oportunidade de viver aquilo. Claro que, por vezes, pode ser triste olhar para esses retratos e sentir saudades de quem já partiu, mas gosto de ver o lado positivo de tudo. Ter conhecido e dividido momentos com essas pessoas terá sido o mais importante e mesmo que elas já não estejam cá para nos abraçar, deixaram-nos memórias alegres. É a morte que faz com que a vida seja tão especial, porque com o pouco tempo que temos, não vale a pena sermos infelizes.
Para concluir, reforço que a memória é algo inerente ao ser humano. Ela é fundamental na construção dos nossos valores e convicções. Por isso, construam imensas memórias!
ONTEM
ALBERTO CAEIRO, – «O descobridor da Natureza»
«O espaço de existência de Caeiro é o campo e é nele que [o mestre] afirma um pensamento que nega as ilusões e os excessos da modernidade.» Carlos Reis
Para o poeta o mundo fez-se «para olharmos para ele e estarmos de acordo…».
HOJE
A Natureza cansou-se dos maus-tratos e passou ao ataque. Tempestades, tornados, cheias, ciclones… uma Natureza em fúria, que, desapiedada, reclama o seu território ao invasor.
Mariana Oliveira | 12 C
Como já se observou no passado, a mudança é sistemática e constante. De um século para outro, a tecnologia evoluiu exponencialmente – até existem robôs que fazem quase tudo por nós. No entanto, estes avanços têm muitas vezes um impacto negativo no nosso planeta.
Caeiro, o poeta bucólico, escreveu sobre a importância de olharmos e apreciarmos a Natureza pelo que ela é, não naquilo que a poderíamos tornar. Porém, de um modo geral, o ser humano é cruel com o mundo que o rodeia. Quantas vezes já vimos alguém atirar um papel para o chão, porque o caixote de lixo estava longe? Estes e muitos outros comportamentos incorretos não só influenciam negativamente a nossa mentalidade coletiva, como estão a destruir a nossa casa.
A Natureza está farta (e com toda a razão) de ser maltratada, e já nos deu diversos sinais disso: o degelo nos polos, as alterações climáticas, as tempestades e cheias devastadoras… Mas, à boa maneira do povo, “o pior cego é aquele que não quer ver”.
É evidente que a realidade de Caeiro não é a nossa, afinal, são cem anos de distância. Todavia, não era preciso chegar a este ponto. Ao ponto em que estamos a ser postos da porta para fora e não nos apercebemos de que o problema é real e nós somos a sua causa.
ONTEM
Ricardo Reis, «Um estrangeiro no mundo»
Reis aceita pacificamente a fugacidade da vida e a inevitabilidade da morte, procurando a felicidade nos prazeres simples e naturais da existência. Eis o seu conselho: «Senta-se ao sol. Abdica. /E sê rei de ti próprio».
HOJE
O Homem contemporâneo oscila entre duas posturas perante a vida: adiá-la ou usufruir dela. A vida é azáfama, correria, acumulação de riqueza, fama, poder… luta constante por «um lugar ao sol». Porém, são já alguns aqueles que trocam a superficialidade do luxo citadino pela simplicidade do campo, que lhes dá aquilo que o dinheiro não compra.
Íris Ferreira | 12 A
Atualmente, grande parte das pessoas vive para trabalhar em vez de trabalhar para viver. Somos o produto de uma sociedade consumista, que prefere uma vida luxuosa e agitada a um estilo de vida calmo e modesto.
É hoje difícil encontrar alguém que não sofra de ansiedade e que não se sinta stressado grande parte do tempo. As doenças mentais têm, atualmente, grande relevância e toda a gente fala em depressão, burnouts, ansiedade. Mas por que é que este tipo de doenças parece estar cada vez mais generalizado?
Na minha opinião, todos estes problemas são agravados pelo estilo de vida que adotamos. Normalizou-se a vida corrida da cidade, onde tudo tem de ser rápido – as mensagens são abreviadas para que não se desperdice tempo, o consumo das comidas fast food aumentou, porque ninguém tem tempo para desperdiçar na cozinha –, todos os dias têm de ser produtivos e para quê? Para podermos ter o “céu e a terra”, uma vida de luxo da qual nos podemos gabar aos outros.
Porém, já existe quem troque o trânsito stressante e o barulho constante da vida citadina por “aquilo que o dinheiro não compra”, optando por uma vida simples e modesta, com um luxo que nem todos podem ostentar. O luxo de aproveitar a vida, de viver o momento, o luxo de ter uma vida tranquila onde existe tempo para tudo. Talvez Ricardo Reis tivesse razão, talvez seja preferível aproveitar os pequenos prazeres da vida em vez de ter tudo, mas não ter aproveitado nada.
Em suma, temos duas opções na vida – «adiá-la ou usufruir dela».
ONTEM
Álvaro de Campos – «O vate da era industrial»
O poeta canta a velocidade, faz a apologia da beleza desconhecida da máquina e da civilização moderna. Campos celebra o triunfo da máquina.
HOJE
«A inteligência artificial é a capacidade de uma máquina para reproduzir competências semelhantes às humanas como é o caso do raciocínio, da aprendizagem, do planeamento e da criatividade.»
Sítio do Parlamento Europeu
Será que o Homem do século XXI, o mais tecnológico, permitiu a ascensão de um novo escravizador? A máquina ao serviço do Homem ou o Homem dominado pela máquina?
Soraia Ferreira | 12A
A inteligência artificial é uma ferramenta que tem vindo a ser utilizada e valorizada. É uma invenção que parece reproduzir as competências do próprio criador – o Homem – e que, hoje em dia, é motivo de debate: A máquina ao serviço do Homem ou o Homem ao serviço da máquina?
É incontestável que a máquina faz parte da maioria das vidas humanas, mesmo que, em alguns casos, seja reduzidamente. Mas levanta-se a questão: Será que o Homem permitiu a ascensão de um novo escravizador? A meu ver, a máquina depende do Homem. Seria impossível existirem máquinas que “reinassem” sobre a humanidade, já que quem lhes conferiria esse poder seria, de facto, a humanidade. Na atualidade, apesar das competências da inteligência artificial se aproximarem das do cérebro humano, as últimas têm uma capacidade de desenvolvimento autónomo que nenhum outro ser – vivo ou não – tem. Assim, a evolução da máquina é mérito do Homem, pelo que este tem, também, o poder de a “desligar”.
Para além desta relação de dominância física que a humanidade estabelece com a máquina, há também uma psicológica. O ser humano tem aquilo que a inteligência artificial não tem: consciência.
Usufruir da ferramenta tecnológica é um bem maior, desde que seja equilibradamente. Quando o Homem se apercebe de que se está a tornar dependente, é da sua responsabilidade afastar-se e “voltar às origens”.
Deste modo, a inteligência artificial é uma ferramenta que é incapaz de dominar o humano. Afinal, o que nos difere é o facto de a nossa inteligência ser natural e única.